Cultura nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos

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Andança de Danilo Caymmi chega renovada às Olimpíadas do Rio

11.8.2016 - 12:40

A Casa Brasil abre as portas nesta quinta-feira, a partir das 19h, ao cantor e compositor Danilo Caymmi, filho mais novo do lendário Dorival Caymmi. Acompanhado do violonista Davi Mello, do grupo Noites do Norte, Danilo apresentará canções que marcaram a carreira de seu pai, com forte enfoque no samba de roda do Recôncavo Baiano, e também músicas próprias, como Andança. O show é promovido pelo Ministério da Cultura (MinC), com colaboração da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Em entrevista exclusiva ao portal do MinC, Danilo Caymmi fala sobre o show, a relação com o pai Dorival Caymmi e com o cantor e compositor Tom Jobim, sua própria carreira, preferências musicais e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, entre outros. Confira! 
 
Danilo Caymmi fará show intimista na Casa Brasil: "Voz e violão é minha especialidade, sei interagir com o público e transformar a apresentação em um ambiente agradável" (Foto: Lívio Campos)
 

O que o público pode esperar de sua apresentação nesta quinta-feira?

Nos meus shows, toco sempre um repertório com músicas da minha família e também sucessos meus, como Andança e Casaco Marrom. Também vou tocar músicas que fiz para a televisão, para as séries Riacho Doce e Tereza Batista, entre outras. Mas o principal estilo musical será o samba, muitos deles do meu pai. Ele tinha uma linha de samba muito característica da Bahia, da região do Recôncavo, que é muito diferente do carioca. Eu gosto muito e o público fica muito motivado. Será um show de voz e violão. Estarei acompanhado do Davi Mello, do grupo Noites do Norte, um músico muito talentoso. Voz e violão, inclusive, é minha especialidade, faço assim há anos, sei interagir com o público e transformar a apresentação em um ambiente agradável e de muito humor também, o que é bem legal. É sempre muito bom tocar aqui no Rio, que é onde eu vivo. O público aqui tem um carinho muito especial pelo meu trabalho.

 

Você terminou recentemente a turnê do Don Don, seu último disco, com composições do seu pai. Como foi fazer essa série de shows em homenagem a ele?

O Don Don foi o disco que fechou uma série de iniciativas que promovi em homenagem ao centenário de nascimento do meu pai. É um disco com um ponto de vista moderno, produzido por produtores jovens (Domenico Lancelotti e Bruno Di Lullo). Eu fui apenas o cantor e o flautista, deixei os produtores resolverem tudo, não interferi em nada, o que era exatamente a concepção que eu queria. O disco originou um show muito bonito, que coroou essas ações do centenário.
 

Além desse disco e do show, quais outras iniciativas você promoveu em comemoração ao centenário de Dorival Caymmi?

Na verdade foram vários discos. Inclusive, um deles (Caymmi, de Nana, Dori e Danilo Caymmi) foi vencedor na categoria Projeto Especial no Prêmio da Música Brasileira de 2014. Também fizemos debates sobre a carreira do meu pai, mediadas pelo professor Júlio Diniz, da PUC/RJ e com participação da minha sobrinha Stella Caymmi, autora da biografia do meu pai (Dorival Caymmi – o mar e o tempo). Também publicamos livros, fizemos exposições, tudo o que o nome de Dorival Caymmi merecia. De tudo que nos propusemos, só não consegui fazer o balé. Quando o Tom (Jobim) morreu, o Balé da Cidade de São Paulo fez um espetáculo só com músicas dele. Pretendo fazer do meu pai também algum dia.
 

Como foi crescer em uma família musical, capitaneada por um mestre como Dorival Caymmi?

Foi muito bom. Meu pai sempre nos deu uma formação musical muito boa, o que eu também tento fazer com a minha filha Alice (a cantora Alice Caymmi). Ele nos ofereceu oportunidades muito boas na parte intelectual. Sempre tivemos uma boa biblioteca, uma pinacoteca incrível, uma discoteca também muito boa. Ele não era só um pai, mas um amigo também, e aprendi muita coisa com ele da profissão de músico. Sempre me deu apoio, mas me deixando muito à vontade para criar. Outra coisa que ele fez questão de me ensinar, e aprendi também com outras pessoas com quem convivi, como o próprio Tom Jobim e o Jorge Amado, foi a não glamorizar a profissão de artista. Isso mata muitas pessoas, que são pinçadas ao estrelato e de repente caem e não sabem abrir o paraquedas. Na vida artística você tem altos e baixos e é preciso saber lidar com isso. Outro grande ensinamento dele foi a ousadia, não temer o risco. 
 

O que você ouvia com o seu pai quando criança e adolescente?

Eu gostava muito de ouvir essas canções do mar dele. Também os impressionistas, como (Maurice) Ravel e (Claude) Debussy, que ele gostava muito. E jazz, muito jazz. Todos nós fomos muito influenciados por isso. Papai era uma pessoa muito peculiar, também gostava muito de pintar, era um multiartista, o que era diferente para o tempo dele. Até a maneira dele de tocar violão era diferente.
 

Como você começou sua carreira como músico?

Comecei tocando flauta. A primeira vez que fui ao estúdio eu tinha 15 anos. Participei da gravação do disco Caymmi visita Tom. Depois comecei também a tocar violão, a compor algumas músicas, até que em 1968, aos 21 anos, compus "Andança", que fez muito sucesso, e também Casaco Marrom. E daí começou. Trabalhei muito como músico nos anos 70, inclusive na banda do Edu Lobo. Participei em muitos discos importantes nessa década, se procurar nos créditos está meu nome lá, no naipe de flautas. Já como cantor, comecei em 1983/1984, quando fui tocar com o Tom (Jobim) na Banda Nova. Ele resolveu me dar alguns solos. Chegava pra mim e dizia: canta esta, canta aquela. E eu falava "meu deus do céu", era Samba do Avião, A Felicidade, só música difícil. Ele gostava da minha voz abafada. Aí depois fui estudar canto com a Heloisa Madeira, que era prima dele, e acabei me aperfeiçoando e gostando. Na década de 90 me profissionalizei como artista solo.
 

Como foi trabalhar com o Tom Jobim?

Quando eu fui aos 15 anos gravar a flauta do disco Caymmi visita Tom eu tive a oportunidade de conhecer a música dele e de vê-lo tocando. Eu fiquei muito impressionado com tudo aquilo. Depois, fomos nos encontrar profissionalmente quando eu entrei na Banda Nova. Ele me deu muitas oportunidades, era um homem maravilhoso, sem essa glamorização de certos artistas que pediam 400 mil toalhas no camarim.
 

Sua primeira música de sucesso, Andança, ficou em terceiro lugar no Festival Internacional da Canção de 1968. Como era participar desses festivais, em plena ditadura militar?

Foi na época em que eu era estudante de arquitetura. Estávamos evidentemente vivendo um momento político muito difícil, e a recomendação a todos os músicos era apoiar a música do (Geraldo) Vandré (Pra não dizer que não falei de flores), que acabou em segundo lugar (a vencedora foi Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque). Isso significava que eu teria de vaiar minha própria música (risos). Mas se você for analisar bem, esses festivais eram um contrassenso. Porque nessa época estava ocorrendo a Passeata dos Cem Mil, vários amigos estavam sendo mortos. Nós, como músicos, tínhamos uma participação política, com vários amigos na clandestinidade. Às vezes, pegávamos o dinheiro inteiro da bilheteria, um cara ia buscar no teatro e levava não sei pra onde. Era nosso jeito de ajudar. Foi um período muito difícil, tanto que acabou me levando a sair da faculdade de arquitetura, por conta de tantos amigos que sumiram. É impressionante como mesmo sem internet, que não existia naquele tempo, tínhamos que tomar muito cuidado, porque qualquer coisa que falássemos em um bar podia se virar contra a gente. Enfim, Andança foi uma música atípica para a época, sem uma pegada política, e que está até hoje no gosto do povo. É uma das músicas mais executadas desde a criação do Ecad.
 

Já tem planos para um novo trabalho?

Sim, tenho. Mas é uma surpresa. É um disco que todo mundo me pede e eu estou devendo, mas não posso falar agora. Já está pronto, deve sair em outubro. Acho que é o meu melhor trabalho. Eu mostrei para a Nana (Caymmi) e ela chorou quando ouviu. Também ganhei elogios da Cristiane, que cozinha lá em casa eventualmente. Ela estava fazendo uma feijoada e parou para aplaudir lá de dentro. Então está bom, né?
 

O que você gosta de fazer nas suas horas vagas?

Eu vou para a academia sempre. Gosto de malhar, de cuidar da saúde, do corpo. Também cuido da saúde mental, faço terapia há muitos anos, estou sempre prestando atenção em estar bem para dar o meu melhor para o público. 
 

E do ponto de vista cultural?

Ouço muita música, muito jazz. Gosto muito da Stacey Kent, que cantou recentemente com o Edu Lobo e o meu irmão (Dori Caymmi). Geralmente, aos domingos pela manhã, coloco no Spotify (serviço de música comercial em streaming) e fico ouvindo. É um serviço espetacular. No sábado passado, por exemplo, a Nana veio aqui pra casa e ficamos ouvindo aquela rixa entre a Maria Callas e a Renata Tebaldi. Depois ouvimos música italiana (cantarola Sapore di Sale), Frank Sinatra e algumas canções antigas dela que ela havia esquecido. Foi muito agradável. Tudo Spotify, ela ficou fascinada. Dos irmãos, sou o único mais ligado às coisas digitais. Nana e Dori são tecnofóbicos totais. 
 

Da nova geração, o que você gosta de ouvir?

Dos novos, conheço sobretudo o que a Alice me mostra. Esses dias vi um cantor de muita qualidade, o Filipe Catto, de São Paulo. Vi um show dele aqui no Rio e gostei muito, fiquei impressionado. Tem muita presença de palco, além de cantar e tocar muito bem. Gosto da ousadia dele. Outras cantoras interessantes que Alice me mostrou foram a Ava Rocha (filha do cineasta Glauber Rocha) e a Simone Mazzer.

 

Uma de suas preocupações, como diretor da Abramus, é a questão dos direitos autorais. No fim de junho, você e outros representantes de sociedades de autores se encontraram com o ministro da Cultura, Marcelo Calero, para debater o tema. Como foi a reunião?

Eu fiquei bastante satisfeito, porque abrimos, depois de muito tempo, uma possibilidade de diálogo. Essa primeira conversa representou uma trégua em um combate acirrado, que desuniu compositores, até mesmo famílias, que criou uma enorme polarização, um clima de Fla x Flu. Senti um alívio, como se tivesse terminado uma maratona. Precisamos debater para chegar em um meio termo e agora há espaço para isso. Tivemos uma ótima conversa, em uma mesa de bar na Casa do Choro. Foi muito bom ver que o novo ministro tem uma posição mais flexível, mais humana.
 

Para finalizar, como é ver os Jogos Olímpicos na sua cidade?

Está andando muito bem, o que não é surpresa, porque o Rio de Janeiro sempre dá jeito nas coisas. A cidade está tranquila, fiquei temeroso com a possibilidade de algum atentado, mas tudo está transcorrendo normalmente. Além disso, as obras para os Jogos vão melhorar bastante a mobilidade na cidade. Dia desses voltei por uma via expressa nova e cheguei em Copacabana, onde moro, em segundos. Para a Barra da Tijuca, com o túnel novo, também vai melhorar bastante. Agora tem várias opções para deslocamento, é um legado muito importante.
 
Serviço: 
Show de Danilo Caymmi e Davi Mello
Data: 11/08/2016 
Horário: 19 horas
Local: Auditório do Armazém II da Casa Brasil
Entrada franca. Ingressos serão distribuídos aos 200 primeiros, com retirada de senha com 30 minutos de antecedência.
 
 
Alessandro Mendes
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura