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Salve o samba, salve ela. Salve Dona Ivone Lara!

07.11.2016 – 20:15 
"A homenagem à Dona Ivone Lara, glória maior do querido Império Serrano, é, portanto, o reconhecimento de um traço fundamental da identidade brasileira, do entusiasmo de um povo pela sua cultura e de uma experiência civilizatória única", Marcelo Calero, ministro da Cultura (Foto: Janine Moraes/Ascom MinC)
 
 
Leia discurso do ministro Marcelo Calero proferido na solenidade de entrega da Ordem do Mérito Cultural 2016, no dia 7 de novembro, no Palácio do Planalto, em Brasília.
 
O ritmo cativante de atabaques, xequerês e chocalhos que ecoavam no terreiro de Ciata de Oxum, na Praça XI, foi o elo mais forte entre o Recôncavo Baiano e o Rio de Janeiro, considerados os berços do samba. A casa da baiana Hilária Batista de Almeida, nome de batismo de Tia Ciata, era o reduto da geração de notáveis que transformou e moldou a tradição rural do samba de roda do Recôncavo em fenômeno urbano. Entre os habitués da casa de Tia Ciata estavam nomes fundamentais, como o de Sinhô, João da Baiana e Mauro de Almeida. E foi também nesse ambiente que nasceu Donga, filho de Tia Amélia, autor do primeiro samba gravado, registrado como tal na Biblioteca Nacional no dia 27 de novembro de 1916. 
 
O sucesso retumbante de Pelo Telefone no Carnaval do ano seguinte, no momento em que capoeiras e cantores de samba eram perseguidos pela polícia, contribuiu para que as ditas elites reconhecessem a sensibilidade poética daquele grupo de compositores, que influenciou tão fortemente alguns gênios incontestes da música brasileira. Cartola, Noel, Clementina e, sem dúvida, a grande homenageada da noite, Dona Ivone Lara. Muito mais do que o Brasil, ela representa uma parte importante da história de nossa gente, que se apresenta, em sua face mais festiva, na forma de ritmo magistral e belos versos. 
 
A homenagem à Dona Ivone Lara, glória maior do querido Império Serrano, é, portanto, o reconhecimento de um traço fundamental da identidade brasileira, do entusiasmo de um povo pela sua cultura e de uma experiência civilizatória única. O ritmo pulsante dos partidos altos e demais vertentes do samba preserva, revela e atualiza a história de resiliência dos povos africanos que atravessaram o Atlântico para trabalhar forçadamente no Brasil e resistiram como puderam, especialmente por meio de suas manifestações. Não podemos pensar o samba de outra forma que não como parte da história da liberdade, da emancipação e da autonomia do povo brasileiro. Como bem nos lembra Dona Ivone Lara, "negro é a raiz da liberdade". 
 
No ano em que se celebra os 100 anos da gravação de Pelo Telefone, a Ordem do Mérito Cultural homenageia brasileiros que, por seu trabalho e dedicação, engradecem nossa cultura e permitem, com seu afinco, sonharmos com um país mais justo. Um Brasil onde todas as formas de preconceito e segregação se transformem numa grande kizomba, em que todos nós, filhos de Ciata, Zumbi, João Cândido e tantos outros, nos reunamos numa mesma emoção. 
 
E, certamente, não há emoção maior do que rendermos a grande homenagem da noite à dama do samba, Dona Ivone Lara, autora de letras antológicas, capítulo retumbante da memória afetiva e criativa do Brasil. Salve o samba, salve ela. Salve Dona Ivone Lara! 
 
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