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Esse mundo que nós estamos construindo “virá, que eu vi”

10.11.2015 - 18:30
 
Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural 2015 - Palácio do Planalto, 09 de novembro de 2015
 
 
Eu queria iniciar cumprimentando um poeta brasileiro que nos inspirou a todos: Augusto de Campos. Meus cumprimentos. É uma honra podermos, todos aqui, homenageá-lo.
 
Cumprimento, vocês me permitam também cumprimentar um outro poeta brasileiro, Caetano Veloso e os integrantes da banda. Por intermédio deles cumprimento todos, todas as agraciadas e todos os agraciados desse Prêmio Mérito Cultural 2015.
 
Cumprimento os ministros de Estado aqui presentes: Juca Ferreira, da Cultura; Jaques Wagner, da Casa Civil; o embaixador Sérgio Danese, interino das Relações Exteriores; ministro Aloizio Mercadante, da Educação; e ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente.
 
Cumprimento as senhoras e os senhores produtores e representantes do meio cultural e artístico,
 
Cumprimento a Bia Lessa, responsável por essa maravilhosa produção,
 
Cumprimento os senhores e as senhoras jornalistas,
 
Quero dirigir um cumprimento pessoal aos admitidos na classe Grã-Cruz. Primeiro, Augusto de Campos, Ailton Krenak, representado pelo senhor Cremba Krenak, a senhora Francisca Conceição Barbosa, Mestre João Grande, Maria das Neves Barbosa, Niède Guidon, representada pela senhora Luiza Nunes Alonso, Paulo Herkenhoff, Regina Barbosa, Vera Lúcia Bottrel Tostes, representada por Rodrigo Bottrel Pereira Tostes.
 
Os admitidos na classe Comendador: Adilson Godoi, Aldyr Schlee, Antônio Araújo, Arnaldo Antunes, Cesare La Rocca, representado por Helmut Neve, Davi Kopenawa Yanomami, Marcelo Yuka, Rolando Boldrim, Rui Mourão, Ruy Cezar in memoriam, representado por Roselena Reis, Walter Carvalho, representado por José Carlos Córdoba Coutinho.
 
Admitidos na classe Cavaleiro: Eva Schul, Humberto Teixeira, o Doutor do Baião in  memoriam, representado por Denise Shapman, Italo Campofiorito, representado por Jorge Augusto Vinhas, Luis Humberto, Mãe Beth de Oxum, Sônia Guajajara, Vaniza Santiago. Demais admitidos na Ordem de Mérito Cultural, as seguintes entidades: Sociedade Musical Curica, representada por Edson Júnior da Silva; Casa de Cinema de Porto Alegre, representada por Gilberto José Pires de Assis Brasil; Centro de Memória do Circo, representado por Verônia Tamaioki; Tribo de Atuadores Ó Nóis Aqui Tra Vez, representado por Tânia Maria Farias da Silva.
Cumprimento, enfim, a todos os presentes,
 
E quero dizer que nós hoje nós emocionamos, porque sempre que há, de fato, uma manifestação cultural que congrega tantos talentos é impossível não se emocionar. Aqui, não só talento, mas criatividade em  suas várias linguagens. Essa é uma síntese do trabalho das 29 personalidades e das cinco entidades que recebem, nesta noite, o Prêmio Ordem do Mérito Cultural. Todos merecem nossos aplausos e, sobretudo, merecem nosso agradecimento. Falam com a alma e fazem a alma da nossa nacionalidade.
 
Nossos homenageados são todos, à sua maneira, cada um, tradutores dos símbolos, dos sentidos, das crenças, das necessidades, das utopias, dos defeitos e das características constitutivas do povo brasileiro. Vocês representam o melhor de nossa tradição e de nossa vanguarda. Vanguarda e tradição, assim mesmo, tudo junto, tudo misturado na riqueza da nossa cultura.
 
O homenageado especial desta edição, Augusto de Campos, é exemplar de riqueza de nossa produção cultural. Fundador, junto com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, do movimento da poesia concreta no Brasil, Augusto de Campos antecipou o moderno, foi além dele, teorizou e poetizou o mundo. Desenhou poemas, fez tradução criativa, teve poemas musicados, outros poemas pintados. Tudo coerente com a dimensão verbal, visual, pictórica da escrita.
 
Para nossa imensa alegria, a maioria dos laureados continua em plena atividade, enriquecendo a cultura brasileira. Alguns, infelizmente, não estão mais entre nós, mas deixaram um legado que marcou e ainda marca a vida das nossas gerações.
 
Este é o caso, por exemplo, de Ruy Cezar, cuja militância estudantil foi matriz de sua militância cultural. Nos deixou o belo trabalho da Casa Via Magia. É também o de Humberto Cavalcanti Teixeira, o Doutor Baião, parceiro de Luiz Gonzaga em canções que persistem nos emocionando, que se comparam a verdadeiros hinos do nosso País, como Asa Branca e Assum Preto.
 
Assim é a cultura: há permanências, há transformações. Expressão viva da sociedade, é influenciada também por novas maneiras, velhas tradições. Novas maneiras de agir e de pensar, abrindo espaço para novas incorporações.
 
Disso que falo sobram exemplos nesta cerimônia. A Banda Musical Curica está em atividade há 167 anos, sempre se renovando por investir na formação de novos músicos. Arnaldo Antunes é um exemplo de artista que se expressa em várias linguagens, como compositor, cantor, poeta e artista visual. Marcelo Yuka alargou os limites da música pop, inserindo fortes mensagens em letras de músicas com melodias e ritmos irresistíveis. Nos lembrando que "paz sem voz não é paz, é medo".
 
Somos, sem dúvida nenhuma, um povo afortunado. Nossa identidade cultural foi forjada em meio à diversidade, resultando em um mosaico de tradições, criações, inovações e expressões. A pluralidade de sons, danças, imagens, objetos, textos se tornou nosso rico patrimônio cultural, que devemos preservar, porque é a expressão da alma de nosso povo. Nós, brasileiras e brasileiros, nos tornamos mais fortes quando respeitamos e valorizamos essa diversidade.
 
Por isso, o Brasil que nos orgulha é um Brasil que reconhece a música e a sensibilidade das irmãs cantoras de Campina Grande, Poroca, Maroca e Indaiá. É o Brasil de Mestre João Grande e de Mãe Beth de Oxum, que sabe valorizar suas tradições e sua origem africana e que se insurge contra todo o tipo de preconceito, intolerância e racismo. É o Brasil pelo qual lutam Ailton Krenak, Sônia Guajajara, David Kopenawa e Uruhu Mehinako, que respeita e valoriza a cultura indígena e se compromete com a preservação de seus valores e dos seus costumes.
 
Queremos um Brasil que valoriza a rica produção popular, como nos mostrou Rolando Boldrin, assim como nós também admiramos o piano refinado de Adylson Godoy. Nos inspira o Brasil que protege suas crianças e seus jovens, dando-lhes oportunidades, como faz Cesare la Rocca. Nos emociona o Brasil que preserva seu patrimônio e trabalha para que seja usufruído por todos, como fazem José Rui Mourão, Ítalo Campofiorito, a Comissão Guarani Yvyrupa, Paulo Herkenhoff, o Centro de Memória do Circo, Vera Tostes e Niède Guidon.
 
Nossa esperança no Brasil cresce com o teatro da Tribo de Atuadores e de Antônio Araújo; com a dança de Eva Schulm; com os filmes de Walter Carvalho e os textos de Aldyr Schlee; com o trabalho da Casa de Cinema de Porto Alegre, de Luís Humberto e de Vanisa Santiago; com a música de Daniela Mercury. Todos vocês nos fazem entender melhor o Brasil.
 
Nós, brasileiras e brasileiros, vivemos, sem dúvida, um momento especial. Estamos diante da tarefa de continuar trilhando o caminho da democracia, o caminho da tolerância, do respeito às diferenças, da convivência democrática e solidária. Vocês, agraciados pela Ordem do Mérito Cultural, são fundamentais para o sucesso desta tarefa.
 
Parabéns a todas e todos agraciados, que fazem nosso País mais humano e mais rico em sua diversidade. Parabéns a todos vocês que, juntos, constroem, com todos nós, um país que tem de ser mais próximo, mais diverso e mais respeitoso e tolerante.
 
Eu usarei as palavras do Caetano Veloso, da música do Caetano Veloso: esse mundo que nós estamos construindo "virá, que eu vi".
 
Recebam todos o meu abraço.