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A celebração da cultura brasileira

10.11.2015 – 17:20  
 
 
Discurso proferido pelo ministro Juca Ferreira na solenidade de entrega do prêmio Ordem do Mérito Cultural 2015, realizada em 09.11.2015, em Brasília
 
 
Hoje é dia de festa para a cultura brasileira. É para celebrá-la que estamos aqui reunidos homenageando um grupo de pessoas que aos nossos olhos compõem um retrato coletivo da arte e da cultura do Brasil. 
 
A Ordem do Mérito Cultural é a maior honraria prestada pelo governo brasileiro a indivíduos e entidades que contribuíram de forma relevante para a nossa cultura. 
 
O Brasil é múltiplo, heterogêneo; e uma cerimônia como esta revela a nossa extensa e rica diversidade e enorme variedade de talentos individuais e de ações coletivas que somos capazes de produzir.
 
São muitos Brasis aqui presentes. Alguns talvez até desconheçam a existência de outros - tão plural é a nossa natureza, tão cheia de surpresas e revelações.
 
Nesse ano, Augusto de Campos completou 84 anos. O Ministério da Cultura do Brasil vem neste ato reconhecer o inestimável valor de sua produção para a cultura brasileira. Por mais de seis décadas Augusto nos enriqueceu com poemas, livros, "poemúsicas", "intraduções" e textos críticos. 
 
Augusto tem sido um mestre para muitos. Tão grande quanto sua refinada atividade poética, têm sido seus sofisticados ensinamentos sobre a arte da poesia. 
A obra de Augusto de Campos traça uma espiral que, tendo a Poesia como centro, gira e se expande para abarcar áreas vizinhas que incluem a música popular e erudita, o design gráfico, a tradução, a ensaística, as artes visuais.  Em todas, com muita invenção e rigor. 
 
O movimento concretista abriu enormes possibilidades para a arte brasileira. E, porque não dizer para as artes? 
 
Mas não foi fácil o seu trajeto.  Enfrentaram críticas, incompreensões, oposições estéticas e políticas. Os efeitos de sua intervenção se fizeram sentir tanto para a frente (influenciando gerações de artistas, de Caetano Veloso a Arnaldo Antunes e Carlito Azevedo) quanto para o lado (afiliando ao concretismo poetas de sua geração), e ainda para trás, reinterpretando toda a tradição artística brasileira, de João Gilberto aos modernistas, de Gregório de Matos a Pagu, Kilkerry e Sousândrade. 
 
Numa homenagem como esta, é impossível deixar de mencionar seus grandes parceiros: seu irmão Haroldo de Campos e seu amigo Décio Pignatari.  Os três poetas do bairro de Perdizes construíram ao longo de mais de meio século um "corpus" literário de proporções espantosas para um grupo tão pequeno. E de alcance surpreendente para quem trabalhava num país dito de Terceiro Mundo, um país que se supunha condenado a ser eterno repetidor de modas alheias.
 
Augusto de Campos é o Brasil que sabe se superar, que se universaliza. É o Brasil que ousa.
 
Augusto e o concretismo elevam nossa autoestima. Eles nos anteciparam o século XXI. Hoje são estudados e reverenciados no mundo inteiro. Augusto acaba de receber o Prêmio Ibero-americano de Poesia Pablo Neruda. 
 
A Poesia Concreta se expandiu para explorar também a projeção de imagens luminosas, efeitos eletroacústicos. Suas experiências poéticas incluem a utilização de hologramas, do laser, dos efeitos da gravação fonográfica.  
 
Os seus trabalhos de tradução o colocam como um dos mais corajosos e inventivos praticantes dessa difícil arte de reconstituir em outro idioma algo que parecia ser possível de dizer apenas com as palavras e os sons de sua primeira enunciação. 
 
Augusto de Campos tem sido um mestre para muitas gerações, representa hoje, aqui, não apenas a linha de frente da nossa produção poética, mas também, com plena justiça, o trabalho incansável e tantas vezes anônimo daqueles que dedicam seu tempo e seu talento à tarefa de tornar acessível, para os jovens do seu país, a sabedoria e a beleza acumulada em séculos de História.
 
Nesta edição premiamos pessoas ligadas à música, à literatura, ao cinema, às artes visuais e artes cênicas, ao ativismo cultural, à comunicação, à ciência e educação, ao patrimônio. Cada uma delas, com sua vida dedicada à cultura, abriu um caminho por onde o Brasil inteiro pode passar para descobrir a si próprio.
 
Parabéns a todos os homenageados!
 
Viva a arte e a cultura brasileiras!
 
 

Veja matéria sobre solenidade de entrega do prêmio