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Em Salvador, carnaval de rua ganha espaço de blocos pagos

 

12.2.2018 - 8:30  
No carnaval de Salvador, a predominância de uma programação definida pela iniciativa privada vem aos poucos sendo substituída por programações montadas pelo governo do estado, pela prefeitura e pela iniciativa popular, a qual trouxe de volta os blocos de rua (Fotos: Ronaldo Caldas/Ascom MinC)
 
 
O maior carnaval de rua do mundo, que todos os anos leva milhões de foliões às ruas de Salvador (BA) com seus blocos e trios elétricos, vem mudando de forma. O esgotamento de um modelo de negócios que privilegiava camarotes e blocos pagos e a criação de uma nova dinâmica na economia da festa dão lugar a um novo protagonista: o próprio povo. A predominância de uma programação definida pela iniciativa privada vem aos poucos sendo substituída por programações montadas pelo governo do estado, pela prefeitura e pela iniciativa popular, a qual trouxe de volta os blocos de rua. 
 
De acordo com o coordenador do Observatório de Economia Criativa (Obec) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Messias Bandeira, alguns blocos, inclusive, estão abandonando o modelo de negócios do qual eles foram avalistas por muitos anos para investir no carnaval de rua. "Um grande bloco de Salvador publicou um outdoor que convidava as pessoas a trocarem os camarotes pelo carnaval de rua. Depois de muitos anos de exploração e esgotamento de um modelo, os responsáveis pela organização se deram conta de que um ator importante havia sido excluído da festa: o povo", revela.
 
Segundo Bandeira, Salvador terá este ano, pela primeira vez, o circuito do carnaval dividido pelos poderes públicos estadual, municipal e o setor produtivo. "Algumas pessoas optaram por aderir às ações que serão bancadas somente pela administração estadual ou pela prefeitura. Podemos ver iniciativas populares cada vez mais empoderadas no sentido de escolher como e onde o carnaval ocorrerá", destaca.
 
O resgate da essência cultural da festa, que é assegurada pelo povo e pela absorção de uma tendência nacional que é o carnaval de rua, se reflete até mesmo em outro aspecto:  a desconcentração das atividades. Na avaliação da vice-coordenadora do Obec e professora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Daniele Canedo, a programação do carnaval de Salvador deste ano foi formada a partir de um modelo de negócio que refletia as tendências nacionais de um carnaval de rua e também a expansão dos dias de festa determinada pela prefeitura. 
 
"O resultado de todos esses fatores combinados é a desconcentração das principais atividades do centro de Salvador, que sempre esteve reservado a dois circuitos apenas. Este ano, o carnaval estará presente em outros bairros, o que leva as pessoas a criarem seus próprios movimentos e traz à cidade uma nova dinâmica", pondera.
 
Protagonismo x economia
 
A mudança no protagonismo também impacta diretamente os indicadores econômicos derivados do carnaval, que movimentou, apenas em 2017, R$ 1,5 bilhão na economia baiana, segundo levantamento do governo estadual. "Quando o carnaval volta para as mãos do povo, a realidade da economia criativa também muda, parte passa para as mãos dos pequenos empreendedores", destaca Bandeira. Mensurar os indicadores desse público, explica o pesquisador, é um desafio. Indicadores maiores, como taxas de ocupação de hotéis, volume de negócios movimentado e quanto foi gerado em patrocínio por cervejaria, por exemplo, são fáceis de levantar. No entanto, o desempenho dos microempreendimentos, que ganham força durante o carnaval, é mais difícil de mensurar ", explica.
 
Bandeira cita como exemplo o trabalho de um grupo de profissionais que confecciona os turbantes das pessoas que saem no tradicional Bloco Filhos de Gandhy. "Esse grupo, composto por 50 pessoas, passa uma semana recebendo os foliões do bloco. Os indicadores gerados por atividades como essa estão relacionados ao próprio carnaval, mas ficam invisíveis dentro de um contexto maior", afirma.
 
Para determinar um panorama mais preciso, o observatório leva em consideração não apenas a cadeia produtiva, em termos de indicadores, mas também avalia o entorno social. Ou seja, busca saber quais são os efeitos culturais e econômicos da festa em determinadas comunidades, avaliando inclusive quais são as estratégias para o escoamento da produção de pessoas que não estão profissionalizadas. "Temos um cenário bastante complexo e não poderia ser diferente para um estado como a Bahia", conclui Bandeira.
 
Sobre o OBEC
 
O Observatório da Economia Criativa da Bahia (Obec) integra projeto do Ministério da Cultura, que articulou seis universidades que trabalham com a temática da economia da cultura a partir das dimensões simbólica, cidadã e econômica. O Obec foi inaugurado em 2014, vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA). As demais universidades que participam do projeto são Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Nos últimos anos o observatório vem trabalhando em uma série de iniciativas, que vão desde o mapeamento dos projetos de economia criativa no estado da Bahia à elaboração de notas técnicas e publicações que relevem um pouco mais sobre o setor cultural no estado. 
 
Assessoria de Comunicação
Ministério da Cultura